segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Mais um conto publicado

Recebi hoje algumas (muitas) cópias da Coletânea lançada esse ano pelo Concurso Municipal de Contos de Niterói. Como nas duas últimas edições, tenho um conto publicado nesse pequeno livro. Acabei lembrando do primeiro concurso literário do qual participei, que me levou a escrever meu primeiro conto. O conto foi publicado pelo 1º Prêmio ISAT, com o apoio da livraria Nobel. Como o contrato de direitos autorais já venceu, posso colocar o conto aqui no blog sem problemas... é emo, é brega, mas pra mim é válido; foi minha primeira aventura na prosa, e sem ela eu não teria produzido tanto quanto já produzi nos últimos três anos.


Anjo

12/03/2007 Segunda-feira
Já é tarde. Após mais um dia desperdiçado de minha existência estou indo dormir. Nada de interessante me ocorre para escrever aqui. Nem sei o porque de continuar mantendo esse diário. Não tenho o que acrescentar ao resto dessas páginas que foram preenchidas do mesmo jeito com que as preencho agora. Como sempre, acordo cedo para ir a um lugar onde continuo trabalhando sem vontade. E sem expectativas de melhora. Ainda limpo o apartamento ao chegar, vendo o sol se pôr por detrás desse mar cinzento. Janto em frente à televisão, assistindo ao telejornal. E insistentemente pego esse caderno surrado para descrever mais uma vez o cotidiano de alguém sem convívio social.

13/03/2007 Terça-feira
Um fato estranho aconteceu na noite passada. Acordei assustado, me sentindo perdido. Olhei à minha volta e constatei que faltavam alguns minutos para as três no relógio digital que fica em cima da cabeceira. Vi um vulto com o canto do olho e logo me virei para saber o que era. Fiquei sem reação por um momento. Uma mulher se encontrava no sofá que deixo perto da janela, onde me sento para ler nos fins de semana, único tempo livre que tenho.
Estava nua, e sua pele refletia a pouca luz do luar não eclipsada pelos prédios que se erguem por toda volta. Abraçava os próprios joelhos, e sua figura reclinada a fazia parecer vulnerável. Longos fios de um cabelo negro como eu nunca tinha visto lhe cobriam a face, o que me impedia de ver suas feições. Mas de um modo surpreendente sabia que era bela. Não mexia um músculo sequer, tanto ela quanto eu. Meu coração pulsava por todo o corpo, e minha respiração estava acelerada.
Após o choque inicial não contive um grito: “Quem é você?”. Não recebi nenhuma resposta. Levantei e apanhei o paletó que sempre ponho na porta do armário, pronto para a manhã seguinte. Um vento gelado entrava pela janela e, pensei comigo mesmo, poderia protegê-la um pouco do frio. Aproximei-me devagar, cauteloso, ainda temendo aquele silêncio. Ela continuava imóvel. Joguei o paletó sobre os ombros desnudos daquela intrusa. Ao que me parece logo ao ter sentido o toque do pano, a invasora ergueu o rosto devagar em minha direção.
Pela manhã sentia enxaqueca. Completamente confuso de início, como em todas as vezes que temos um sonho tão real. Não consegui me lembrar do semblante dela, e não consigo deixar de pensar nisso todo instante. Não vou negar, estou um pouco apreensivo indo me deitar, tendo a imagem borrada de uma estranha em mente.

14/03/2007 Quarta-feira
Saí do sono me sentindo desnorteado de novo na última madrugada. Ainda havia algum tempo de escuridão antes do dia se impor. Procurei um motivo para estar desperto. Novamente aquele vulto me visitou. Encontrava-se parado num canto do quarto. Pude ver seus olhos escuros. Seu olhar era vazio, porém continha um ardor cuja origem não sei explicar. Olhava fixa para mim. Dessa vez minha voz saiu com um tom de medo: “O que quer comigo?”. Nenhum ruído ecoou após minha voz.
Atraído por aquele olhar penetrante, e incentivado pela curiosidade comum à natureza humana, pus meus pés no chão. Num passo arrastado fui seguindo até minha visitante. Conforme chegava cada vez mais perto sentia um perfume inebriante me envolvendo. Não me lembro com clareza do depois, tudo o que tenho são imagens turvas de uma boca fina. Lábios cor de sangue, contrastados por uma palidez mórbida, que eu buscava voraz em um beijo.
Minha fronte pulsava quando acordei. Tomei uma aspirina antes de seguir rumo à rotina. Até o tom cinza pareceu se perder no percurso de volta. Preciso descobrir quem é essa doce hóspede, e o porque de estar aqui. Como chega e como vai embora. Tenho que saber... Ao mesmo tempo, começo a formular outra dúvida. Será que estou louco? Finalmente essa vida de exclusão que tenho vivido pode estar me tirando da razão. De qualquer forma, vou descobrir hoje. Decidi espera-la. Vou ficar acordado até que possa encontra-la de novo.

15/03/2007 Quinta-feira
Mantive-me forte na vigília, xícara após xícara de café. Meus devaneios me ajudaram a não cair na tentação de Morfeu. Imaginava a voz de minha musa. Podia sentir seu cheiro embriagante como se ela estivesse ali presente. A imagem de seu corpo desnudo também foi outra de minhas companheiras. Ela não veio. Essa é a prova de que realmente estou insano.
Minha frustração veio junto com a claridade matinal, que insistia em se espalhar pelo aposento. Tomei um banho demorado, pensando no que tinha se sucedido. É óbvio que ela não existe. Foi apenas uma ilusão, criada por um homem solitário necessitado de companhia. Ainda assim é difícil admitir que minha diva é um delírio, apenas um engano de sentidos causado pelo confinamento ao hábito. Hábito este que estou fadado a manter. Só o que ganhei foi mais uma desilusão. E olheiras, as quais pretendo fazer com que desapareçam com uma noite bem dormida.

16/03/2007 Sexta-feira
Abri os olhos, aturdido. Não pude deixar de sorrir quando percebi o peso de um braço fino sobre meu peito. Ela não é uma alucinação. Estava deitada na cama, ao meu lado, como que a me esperar. Virei em sua direção e pude percorrer as curvas sinuosas daquela jovem, embebedar-me na mulher dos sonhos, para mim de um modo mais literal que o usado em metáfora.
Não sei dizer ao certo, mas incontáveis horas pareceram se passar enquanto estava com meu anjo, intoxicado pela sua fragrância divina. Anjo, como defini-la de outro modo? Melhor palavra não há. O anjo salvador que veio para me resgatar, que me trouxe de volta da constância que me fazia sentir morto.
Não sai, fiquei em casa quando amanheci com a familiar dor de cabeça. Preço baixo que pago pelas noites celestiais que tenho tido com essa deusa. O emprego não importa mais. Nada mais importa. Nada além dela. A garrafa que encontrei empoeirada no fundo do armário não esta ajudando. Preciso dormir, a qualquer custo.
Ainda bem que ainda restavam algumas pílulas daquela medicação que tomei naquela crise de insônia que tive faz alguns meses. Estou indo meu anjo, já sinto meu corpo ficando pesado. E não se preocupe, não achei que uma cápsula fosse bastar. Engoli tudo o restava no vidro empurrado com a vodka. Dessa vez vou passar bastante tempo com você.

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